A escada rangia antes mesmo de eu colocar o peso do corpo. Madeira velha, comida por anos de umidade e silêncio. Cada degrau parecia hesitar antes de me sustentar, como se a cabana inteira estivesse decidindo se ainda me queria ali dentro.
Subi devagar, segurando no corrimão áspero, sentindo farpas se enterrarem na pele da palma da mão. O segundo andar permanecia invisível, engolido pela escuridão. Havia um cheiro metálico no ar, misturado ao mofo, algo que me fez respirar mais curto.
O degrau cedeu sem aviso.
O som foi seco, definitivo. A madeira se partiu sob meu peso e meu corpo despencou junto, sendo puxado para frente. Senti algo rasgar por dentro antes mesmo de atingir o chão. Não foi a queda que doeu primeiro. Foi o estalo abafado, profundo, como tecido sendo aberto à força.
Caí de lado, o ar sendo arrancado dos meus pulmões. A dor explodiu atrasada, brutal, irradiando do abdômen para o resto do corpo. Quando tentei me mexer, senti o calor imediato, escorrendo, se espalhando sob minhas roupas.
Olhei para baixo.
O sangue surgia rápido demais, encharcando o tecido, pingando no assoalho podre da cabana. Cada respiração fazia a dor se aprofundar, como se algo essencial tivesse sido aberto e agora se recusasse a ficar no lugar.
Tentei pressionar a ferida com as mãos, mas elas voltaram escorregadias, tremendo, vermelhas demais. O cheiro de ferrugem tomou o ambiente, pesado, sufocante. Minha visão começou a fechar pelas bordas.
O silêncio da cabana me envolveu por completo. Nenhum passo. Nenhuma resposta. Apenas o som fraco do meu próprio sangue tocando o chão.
Deitada ali, percebi que a cabana não estava abandonada.
Ela apenas esperava.
Enquanto o frio se espalhava e o corpo começava a falhar, o último pensamento veio lento, quase gentil:
Eu não deveria ter subido.